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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

# 8 Do crepúsculo


eu gosto de sair no crepúsculo da tarde.
na hora em que a normalidade se recolhe.
e volta ao conforto do lar.
ao calor da família.
na hora em que se acendem as luzes dos prédios.
e na rua ficam os estranhos.
os tantos outros seres marginais.
os sós, os tristes, os malucos, os profetas.
pedintes, mulheres, artistas, marionetas da vida.
deambulando, ou se encostando às esquinas da praça.
os videntes e os apaixonados (muito cedo para ir para casa)
os turistas em excursão para jantar.
os homens do lixo

[e a amelie poulain de bicicleta!]

sábado, 22 de março de 2008

#7 Salada de fruta tropical

Era uma vez uma goiaba (porque adoro goiabas!). Era o primeiro dia dela na feira. Regressava a casa depois de um tempo a rodar outras feiras. Fora recomendada pelo cupuaçu, colega de escola dos tempos das apanhas no sertão e que já trabalhava naquela há uns meses. A feirinha era colorida. Havia frutas para todos os gostos e feitios. Grandes, pequenas, duras ou macias, ásperas ou suaves, suculentas ou com menos sumo. Havia umas mais doces, outras mais amargas. Enfim, qualquer pessoa saía bem servida conforme os gostos. A goiaba logo se habituou ao seu cesto. A única coisa que queria era ser apreciada como as outras frutas e ser reconhecida pelas suas qualidades. A goiaba é rosada, tem umas pequenas sementes no seu interior e, quando madura, torna-se doce e suculenta.
Mas a concorrência na pequena feirinha da Beira Mar era feroz! Havia frutas que saltavam do seu cesto e insistiam em exibir-se. A goiaba achava aquilo algo estranho, já tinha passado por outras feiras e não tinha visto nada assim... Mas lá continuava na sua. Havia uma fruta em particular, o caju, - não o fruto seco, esse é só a semente da verdadeira fruta - que insistia em ficar na primeira fila em todas as frentes da bancada, repetindo e desgastando até a sua imagem. O caju é uma fruta estranha. Com um aroma muito bom, nota-se à distância. O sabor inicial também é muito bom, mas depois começa a secar.. e no final deixa um trago amargo na boca. De modo que é bem melhor comer ‘sorvete’ de caju do que a fruta em si.
Chegaram as placas com os nomes e os preços e o caju logo agarrou a maior, sem sequer questionar as suas colegas frutas. Na boa, pensava a goiaba, não é o tamanho da placa que me faz melhor ou pior. Chegaram novos cestos e pimba! Lá estava ele na linha da frente, dispensando regras de etiqueta e saudável convivência. Certo dia, a goiaba perguntou as horas ao caju: "Caju, tens horas?" - "Horas? São duas e meia. A propósito, hoje cheguei às seis da manhã aqui à feirinha, estava mesmo escuro..Quer dizer, se contar com o tempo de estacionamento mais o café, cheguei às cinco. Isto quando ontem saí daqui às duas da manhã.. Humm, afinal acho que nem fui a casa!"
De vez em quando, distribuía a sua castanha (o tal fruto seco que conhecemos por aqui) para curar algum mal entendido... Por momentos parecia sociável. Mas logo voltava ao ataque. Passava um cliente, e o caju descaí-se para ser notado. Passava uma brisa de vento e logo se ouvia o caju a pronunciar-se sobre a velocidade do vento, norte, sul, possíveis causas e efeitos. Antes mesmo do vendedor espirrar, ouvia-se o ‘Santinho!’ proferido pelo caju. Era importante cair nas graças do vendedor e dos clientes. As outras frutas ali do lado eram só um empecilho colorido à sua volta (com elas não era preciso haver grandes entendimentos..) Mas era bem colorido. E animado. Havia frutas castiças, outras mais calmas, mas o ambiente em geral era muito bom. A goiaba gostava de lá estar. Gostava em especial da tripla açaí com banana e guaraná. Tripla polémica, mas séria no seu trabalho. Tinham assente que a união lhes conferia mais sabor - uma lição que o caju nunca percebeu...-. Séria mas divertida ao mesmo tempo. Eram as mata-esfola-"vai lá confirmar que morreu mesmo"! Uma falava, as outras assinavam por baixo, aquilo é que era trabalho em equipa.
E à hora do lanche servia-se uma verdadeira salada de fruta. As outras bancas paravam para a olhar. Era colorida, viva, coesa. Havia siriguelas, graviolas (deliciosas estas!), açaís, papaias, umbus, cajás, mangas, abacaxis...muita fruta! (o caju raramente se juntava…não devia gostar de confusão). Tudo reunido para vender mais e melhor. Trabalhava-se muito naquela feirinha. Muitos clientes passavam até altas horas e era preciso dar o litro. Estava em franca expansão e era preciso apanhar a carruagem das feiras vizinhas.
Mas apesar disso, a goiaba percebeu que não havia lugar para ela naquele lugar. Não de acordo com a sua maneira de fazer as coisas... E que haveria feiras melhores para ela mostrar as suas capacidades. Então decidiu seguir para a seguinte. Havia muitas feirinhas à Beira Mar por explorar!
::::::::::
[as frutas são típicas do nordeste brasileiro - e as graviolas são mesmo as melhores!! - M. fico à espera da salada de fruta portuguesa ;) ]

domingo, 16 de março de 2008

# 6 Do ridículo II

...ainda a propósito do que dizia no post anterior, leiam isto e vejam como se pode ter um momento verdadeiramente telepático ... são muitos anos!!

(sem estarem juntas há umas semanas, sem terem visto o post uma da outra - lógico -, e que, por acaso, almoçaram juntas - um maravilhoso sushi!! - mais tarde nesse dia)

quarta-feira, 12 de março de 2008

# 6 Do ridículo

Sempre desconfiei das pessoas que se levam a sério demais. Que não riem, a não ser das suas auto-piadas-clichés. Que ouvem mas não escutam os outros. Que falam ininterruptamente sem necessidade de serem realmente escutadas. Daquelas que levantam as sobrancelhas para falar com a pessoa a meio metro de distância, como se estivessem a falar para o auditório todo. Que não olham nos olhos. Que não estabelecem uma ponte, como que tomados por uma presunção de esguelha pseudo-política. Que despejam clichés a toda a hora, denotanto um claro insulto à inteligência do interlocutor. Que, por qualquer motivo, se acham superiores.
Mas, sobretudo, das pessoas que não sabem rir de si próprias, como se elas fossem diferentes e não soubessem do ridículo que habita nelas, que habita em cada um de nós, inevitavelmente. Que não arriscam a exposição de uma bacorada, de uma piada sem graça. Que não arriscam.
Em paralelo a estas, estão aquelas que não perguntam, só afirmam. Com a convicção de quem vai levantar um prémio da lotaria. Porque não se toleram a dúvida nem a insegurança. Só pergunta quem sabe...já dizia o outro!
Mas voltando ao ridículo....todo o ser humano conhece bem dentro de si o seu ridículo e ainda bem que o disfarça...Mas é também esse ridículo que o aproxima dos outros seres humanos. Porque afinal, somos todos tão iguais nos nossos medos e angústias e expectativas e sonhos.
Mas há pessoas que na imbróglia tentativa de o abafar (ao ridículo), tornam-se ainda mais ridículas. E fazem desabrochar o um novo tipo de ridículo.
O ridículo inconsolável das pessoas sérias demais!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

#5 Dos génios e dos loucos I

Mangue do Ceará (©silvia.magalhaes)


se seria um génio ou um louco, não lhe cabia a ele decidir. ser humanamente frágil, ou uma carapaça fechada a emoções, tampouco. sobre todas as ondas vindas do mar, nenhuma lhe traria essa sabedoria. ele era consciente da sua incapacidade de atingir tal verdade. mas a consciência dessa eterna ignorância matava-o dia a dia. como eliminar essa consciência, como se livrar desse peso. essa era ainda uma meta mais difícil de atingir.

"vive cada instante de modo a adorá-lo"

impossível racionalizar a todo o instante. isso não seria viver mas programar uma vivência. génio por ver mais além. louco por alimentar e cultivar esse alter-ego. miserável por não conseguir livrar-de desse martírio.

gostaria de ser como as papoilas. sorridentes, cheirosas, exalando harmonia e a paz de espírito. a natureza consegue oferecer um pouco dessa paz a todos os seres que nela habitam. elas estão completamente conformadas e felizes no meio que lhes foi dado.

"torna-te quem tu és"
´

ele não era decididamente uma papoila.
(escrito no moleskine a 06/11/2006)

"assim como ossos, carne, intestinos e vasos sanguíneos estão encerrados numa pele que torna a visão do homem suportável, também as agitações e paixões da alma estão envolvidas pela vaidade: ela é a pele da alma."
(in "Quando Nietzsche chorou")

terça-feira, 16 de outubro de 2007

#4 Dos limites

Hoje tive uma interessante ‘discussão’ sobre os limites. Os limites que cada um de nós acha razoável para determinadas coisas, nomeadamente, coisas que não nos fazem muito bem… como sejam as drogas, o tabaco, o álcool ou qualquer outro vício prejudicial ao nosso bem-estar e saúde. O meu colega dizia que um determinado músico não cantava bem porque estava sempre bêbado em palco e, ainda porque estava bêbado, falava em vez de cantar. Por beber, automaticamente cantava mal. Por beber, automaticamente era um vadio sem qualquer valor. Depois disse que era completamente anti-alcool, anti-drogas, anti-vícios!
Bem, eu também me acho anti-tudo isso, mas não tão radicalmente ou com limites tão rígidos como os do meu colega.
E só quando me atinge a mim ou ‘aos meus’, próximos e a quem eu quero bem. De resto, acho que um copo aqui e ali só faz bem à alma e à batida cardíaca.. (há-de haver um estudo americano para provar isso!). Tal como não me chateia um cigarro à noite num bar, mas não à minha beira quando estou a almoçar.
Também acho que aquele velhinho que não dispensa os dois dedos de whisky com gelo depois do almoço, ou uma boa patuscada, vai preferir viver dois anos com esses pequenos prazeres que a vida ainda lhe oferece do que quatro anos e sete meses sem eles.
O Salvador Dali também só conseguia ter aquelas visões surrealistas quando se drogava. E o que seria da Arte Moderna sem a girafa a arder??
Se o nosso músico gosta de um copito aqui e ali e se com isso tem acessos de inspiração que o fazem compor músicas perfeitas, porquê julgar isso? Ficávamos todos mais pobres se ele não tivesse esses acessos (mas é claro que em palco preferimos alguma sobriedade).
Perdemos muito tempo a julgar e a moralizar, quando essa opção só nos diz respeito a nós. E alguns (de nós) arriscam mais, para nos poderem presentear com algo mais também.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

# 3 Do Isopor


(©silvia.magalhaes)

Tinha acabado de chegar. Apenas dois dias de uma nova história. Um mundo por desvendar. Muitos retratos novos me seduziam. Comigo, uma tela em branco. Qualquer ângulo dava uma pintura, uma fotografia, uma oportunidade para conhecer, enriquecer, saborear, desfrutar…. Para trás, uma porta fechada. Não havia ligação possível entre aqueles compartimentos da minha vida. Fechei uma. Abri outra. Logo se veria o que viria por ali. E essa noite prometia. Seria a primeira noite fora de casa naquela cidade estranha. Estava sozinha, eu e o meu novo mundo. Saio à rua, apanho um táxi. Pergunto pela praça. Todos os caminhos conduziam àquela praça nessa noite. No ar, a ameaça de folia para alguns metros depois, adiantando o que viria alguns dias depois. Era o Carnaval que estava a chegar. Nas ruas, já se sentia a passada da marchinha. E nessa terra da alegria, tinha de haver uma grande preparação. Dias antes. Semanas antes.. Meses? Sim, meses antes! Na verdade, há lugares onde não são precisos motivos para se festejar. Festeja-se a vida, que já chega como motivo. Cheguei à praça e logo uma multidão chegou junto. Para se juntar à multidão que já lá estava. E dançava. Dançava sem qualquer vergonha ou complexo, como só ali pude ver. Ao fundo o samba tocava e marcava o compasso do povo. De todas as idades. Não há distinções de idade naquele lugar. Nunca se é velho demais para alguma coisa. Sobretudo para se festejar a vida. São todos meninos em corpos de adultos, com mais ou menos rugas na pele. Todos conhecem bem a criança dentro deles. E gostam de a cultivar.
Algum receio dos imprevistos. Afinal nada daquilo eu reconhecia. E não reconheci um monte de coisas a seguir… entre elas uma palavra - isopor.

“-Como?
-Isopor
-Iso..
-ISOPOR! Esse negócio branco aqui..
-Ahh…Esferovite!
-Hein??”

O Isopor era o esferovite. O esferovite das caixas que carregavam o combustível para toda aquela folia. A boa e velha “geladinha”. Toda a gente se servia dos vendedores e logo percebi que precisava ir lá buscar uma também... (para me ambientar completamente àquele novo mundo!)

Um menino vem ter comigo e estende balas (rebuçados). Era o único de olhar triste. Cabelo carapinha e olhar triste. Por isso me chamou a atenção. Porque me estendeu a mão com o olhar triste num lugar onde só se respirava alegria. E tantas tristezas disfarçadas em corações apertados. Mas essa alegria sempre foi mais forte. Venho a encontrá-lo várias vezes mais tarde, noutros dias, sem banda a tocar. Sempre com as mesmas balas, ou outras balas. Sempre com o mesmo olhar triste.

E as caixas de isopor ambulantes continuavam a penetrar a multidão por todos os lados.

“agora vou divertir
agora vou prosseguir
quero ver quem vai ficar
quero ver quem vai sair”

E marchavam ao som do samba que tocava ao fundo. Lá dentro a bebida sagrada desse nordeste perdido. 2 Reais a lata. E todos os problemas esquecidos. E as latinhas corriam de mão em mão. Beber para chorar, beber para rir. Beber para comemorar o que ainda estava por vir. Bebemorar era a lei desse Ceará. Viver e seguir em frente bebendo. Nada mais era preciso.

Apenas um sorriso naquele menino vendedor de balas.

O isopor ficou por essas festas tropicais. Veio de novo o esferovite. Mas fiquei a saber que não são precisos motivos para comemorar. A vida por si só é o bastante. Fiquei a saber que há crianças que não sorriem nunca. Por mais que sejam crianças. Por mais que todos à volta sorriam. Fiquei também a saber que esferovite também pode ser chamado de isopor. E sem perder a substância.

(em resposta ao Esferovite da Maurette)

domingo, 7 de outubro de 2007

#2 Das empatias

Milhares de pessoas cruzam a nossa vida. Nos meandros das nossas relações sociais, familiares, profissionais e dependendo da nossa mobilidade em cada um desses campos..Conseguimos conhecer sempre mais e mais pessoas. Chegamos a um ponto em que achamos que não vale a pena conhecer mais ninguém.. Não conseguimos gerir tanta coisa. Cada nova pessoa vem potencialmente tirar, nem que por um tempo, o lugar de outra. Mas acontece uma coisa. Sempre sentimos algum tipo de afinidade com cada nova pessoa na nossa vida. Precisamos de um pouco de tempo e convivência para descobri-la. Mas há-de haver sempre alguma afinidade. E podemos ser de contextos completamente diferentes, países diferentes, filosofias de vida completamente diferentes. O taxista da Malásia vai dizer alguma piada sobre os buracos da rua que nos vai fazer rir. O guarda da Realeza inglesa, feito estátua à entrada do Palácio, inerte a todos os turistas a interpelá-lo, há-de sorrir e espreguiçar, nem que seja só umas três horas por dia. Com qualquer pessoa que te cruzes, em qualquer lugar, vais ter sempre algo para lhe dizer. E ela a ti.
Mas claro temos mais afinidades com uns que outros. Ainda bem!
Com quem estamos mais à vontade, que pensa da mesma maneira, que adivinha os nossos pensamentos. Que diz as mesmas piadas. Com quem nos sentimos bem. Chamam-lhe afinidade...
Poderíamos até fazer um ranking da afinidade ou empatia que temos com as pessoas. Não haverá nenhuma que bata 100% connosco (eu própria não saberia dizer o que é bater 100% comigo!). Mas, por outro lado, a nossa natureza humana dá-nos um elo de ligação universal. Podemos ser transcendentalmente diferentes no aspecto e na cultura e em tudo o que nos caracteriza mas há-de haver uma forma de comunicação possível, uma mensagem transmitida e percebida. Uma ponte!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

#1 Dos amores platónicos

Aqueles amores não consumidos. Ainda assim, imensos e genuínos. Voluntários, difícil dizer. Incondicionais, concerteza. Não se sabe muito bem de onde vêm, nem para onde vão. Mas no único momento que realmente importa, este instante, querem-se sempre por perto. Representarão, talvez, a forma mais perfeita de amor (se pudermos categorizar o amor de uma mãe por um filho também platónico). Mais pura. Porque não obedece aos caprichos do coração. Porque se auto-sustenta e fortalece. Porque nos dá uma sensação de perfeição, sem necessitar de presença, de contacto físico. Porque nos conforta a alma e acalma o espírito. Porque está entre o limiar da vontade e a magia do sentimento (daí que voluntário?..). Porque se quer conservar intacto para a vida. Porque esse amor é ténue, suave, manso. Como uma brisa. Não está sempre lá, mas volta e meia passa e refresca. Não é necessário nem cria dependências, mas tudo é bem melhor quando sabemos que existe. Porque esse amor nunca fere, é imaculado, sem mágoas e quezílias. E assim se quer conservar para sempre.